"Eu acredito em minhas possibilidades e potencialidades. Eu faço a minha existência aqui e agora." [Ana Carolina]

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Exclusão social: enfraquecimento e ruptura dos vínculos sociais

      A exclusão social é um conceito complexo e multifacetado, que compreende diversos fenômenos. Exclusão não é sinônimo de pobreza, mas ambas estão articuladas em um mesmo processo que produz e reproduz modelos econômicos, políticos e sociais de desqualificação social, isto é, não podemos refletir ou discutir acerca da exclusão sem considerar o processo de inclusão, pois ambas estão interligadas e influenciam as relações sociais.
     Diante de toda a discussão sobre exclusão social, percebemos que a carência econômica é uma dimensão da exclusão, e está ligado às relações de poder desiguais. E para esta relação de poder se manter, deve ser naturalizada a partir de discursos e atitudes contraditórios, que implicam em formas que os sujeitos encontram de se firmarem na realidade social e serem "aceitos" socialmente.
       Desse modo, vemos que a ideologia não é falsa, mas ilusória e busca formas de legitimar ideias dominantes, mascarando aspectos da sociedade ao enfatizar determinados aspectos para que outros sejam despercebidos e desvalorizados. Assim, a pobreza assume um status de isolamento, em que os sujeitos pobres buscam esconder sua inferioridade e isolarem-se dos sujeitos pobres, escondendo até mesmo de seus familiares por vergonha de sua condição de pobreza e miserabilidade.
       
            Toda essa lógica discutida torna delicado o uso da noção de inclusão porque pode pressupor a legitimidade da ordem social desigual e segregante. Essa inclusão excludente produz a falsa sensação de pertencimento que gera a culpabilização individual pelo suposto "fracasso", "incapacidade" e "vergonha" da sua própria situação e de não estar adequado às exigências atuais; bem como produz e justifica segregações ao estabelecer variações de graus de desvios a um padrão.
          É inevitável não nos questionarmos sobre que tipo de sociedade estamos ajudando a construir e qual a nossa responsabilidade social ao reproduzi-las? Como preservar e criar uma resistência sem deixá-la capturada pela lógica de funcionamento do capitalismo?
          Paugam (2006) aponta que


[...] todos passam pelo processo de desqualificação social - que os empurra para a esfera da inatividade e dependência dos serviços sociais - o que os torna comparáveis a outros pobres, cujas trajetórias são, entretanto, diferentes. (p. 67)

         Assim, a exclusão social gera uma dependência do Estado e da assistência social, que muitas vezes causam vergonha nos sujeitos e dificultam mudanças significativas nesta lógica de funcionamento social; uma vez que causam fragilidade e dependência, colocando-os em situação de vulnerabilidade social.
Desse modo, os sujeitos passam por um processo de desqualificação social que passa a ser visto como intimamente ligado à exclusão. Entretanto, Paugam (2006) afirma que "a desqualificação social não é sinônimo de pobreza" (p. 70), pois a situação das populações permite analisar as "relações de interdependência entre as partes constitutivas do conjunto da estrutura social." (p.70).
         A desqualificação social permite analisar o processo que a mantém ao centro, tornando-a pertencente ao todo, em que os sujeitos estão associados ao status social desvalorizado que os desqualifica, ao mesmo tempo em que os torna integrante do sistema, permitindo-os "incluírem-se" a sociedade. Isto nos permite refletir que os pobres têm função social e simbólica, pois eles fazem parte do sistema e servem de referência para serem identificados ou diferenciados desse status social desvalorizado.
             Ao ser considerada intolerável pelo conjunto da sociedade, a pobreza assume um status social desvalorizado, em que os pobres são obrigados a viver isolados, procurando esconder a inferioridade de seu status no meio em que vivem e mantendo relações distantes com os que estão nas mesmas condições. Assim, "a humilhação os impede de aprofundar, desse modo, qualquer sentimento de pertinência a uma classe social." (p. 69)
           A desclassificação social é uma experiência de humilhação que desestabiliza as relações com o outro e leva os sujeitos a se fecharem sobre si mesmos, afetando as relações com a comunidade por vergonha de expor suas reais condições econômicas e culturais, que implica em um sentimento de culpa e frustração.
          É neste contexto que a fragilidade pode levar à dependência, já que há uma diminuição da renda e uma degradação das condições de vida e que pode ser compensada pelos serviços sociais. "A dependência representa, efetivamente, a fase onde os serviços sociais se encarregam dos problemas dos indivíduos." (p. 75)
           A partir de toda fragilidade e dependência, os sujeitos rompem os vínculos sociais, cessando "todos os tipos de ajuda, num momento em que pessoas enfrentam problemas em todos os setores da vida." (p. 76). E, sem esperanças de encontrar uma melhoria de vida, os sujeitos sentem-se inúteis e procuram o álcool como meio de compensação para a felicidade.
     Por isso, o rompimento e enfraquecimento dos vínculos sociais constituem essencialmente o processo de desqualificação social que levam os sujeitos a situações de miserabilidade, desesperança, aproximação com drogas e ruptura de qualquer relação com a comunidade, excluindo a possibilidade de felicidade e perspectivas futuras em que se possa viver melhor, visto que há o sentimento de não pertencimento aos grupos sociais, que geram insegurança em pertencer ao grupo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PAUGAM, S. O Enfraquecimento e a Ruptura dos Vínculos Sociais: uma dimensão essencial do processo de desqualificação social. In,: SAWAIA, B. (org.). As artimanhas da exclusão social: análise psicossocial e ética da desigualdade social. Petrópolis: Ed. Vozes, 2006. Cap. 4, pp. 67-86.

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